Acerca do casamento e de José Pacheco Pereira
January 11th, 2010 by gmoraisNão sou nem a favor nem contra o casamento. Não tenho qualquer opinião fundamentada acerca do assunto, embora julgue, obviamente, que o casamento não tem como fim em si mesmo a procriação. Por esta razão julgo que quer casais inférteis, quer casais homossexuais, têm tanto direito a casar como eu e a minha mulher tivemos. Do ponto de vista legal, é no entanto evidente que existe uma clara vantagem do casamento em relação a outro tipo de relações estabelecidas, como seja a união de facto, especialmente quando pensamos em direitos sucessórios.
Julgo além do mais, que neste caso o Partido Socialista (PS) se comportou correctamente do ponto de vista formal. É factual que a na campanha eleitoral uma das medidas que o PS referiu como objectivo para a legislatura foi a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo e nada referiu em relação à adopção. Obviamente que isto se ficou a dever simplesmente a um frio cálculo eleitoral. É verdade que, mais uma vez, o PS socrático se limitou a gerir expectativas e a não tomar posições demasiado controversas que lhe impossibilitasse atingir algumas das franjas do eleitorado. É verdade que do ponto de vista político, mais uma vez, o PS pairou sobre uma possível clarificação ideológica, embora se tenha que reconhecer nesta semi-medida, uma forma semi-arrojada de quebrar com um semi-tabú inculcado na sociedade portuguesa. Mais uma vez expresso a minha descrença nesta forma de fazer semi-política.
Uma das coisas que caracteriza de uma forma global os portugueses é, além da pouca exigência intelectual, uma incapacidade abstracta de ultrapassar um individualismo estéril. Não se consegue assim supor, abstractamente, que duas pessoas possam usufruir das mesmas condições que nós, se houver alguma coisa que as distinga de uma maioria de costumes. No caso do casamento, a orientação sexual ou a mistura daquilo que o nosso boçal presidente apelida de raças. É de todas as formas chocante, que o amor que duas pessoas possam nutrir uma pela outra seja desconsiderado em relação ao modo como se articulam sexualmente ou por terem peles diferentes.
A juntar a tudo isto existe ainda a imbecilidade envernizada que alguns comentadores ostentam. E não, não estou a falar de João César das Neves. Estou a falar de José Pacheco Pereira (JPP), uns dos principais ideólogos do actual Partido Social Democrata. Na última quadratura do círculo, JPP juntou aos argumentos habituais contra a possibilidade de um casal homossexual adoptar uma criança o risco de pederastia. Começo por julgar chocante que nenhum dos seus parceiros de debate se tenha prontificado a rebater de imediato esta tese aviltante. Ficou claro, nos seus silêncios, que só o preconceito superficial, não o profundo, cairá por decreto.
A tese de JPP sofre de um de dois males. Se ele acha que não existe qualquer tipo de distúrbio, sexual ou de qualquer outro tipo, num casal homossexual então nesse caso, o risco de pederastia estará igualmente presente num casal heterossexual. Isto tornar-me-à, e a qualquer pai com filhas, um potencial pederasta. O ridículo desta posição parece-me por demais evidente. Uma segunda possibilidade, mais crível, é que JPP reconheça no fundo de si mesmo que um homossexual é uma pessoa com um comportamento desviante e, por isso mesmo, passível de cometer tal delito. Neste caso JPP não passará de um ignóbil preconceituoso, algo que ele próprio terá bastantes dificuldades em admitir.
Em qualquer dos casos a posição de JPP parece-me claramente insustentável, demonstrando uma torpeza vil no entendimento humano do significado de ser pai ou mãe ou, não sendo mais promissor, um preconceito medieval em relação à homossexualidade. Tudo isto vem, obviamente, revestido de uma hipotética profundidade de quem se julga na inversa grandeza da sua intrínseca dimensão. Um teste prático, para medir a verdadeira grandeza de um homem, é calcular o quociente entre o seu verdadeiro valor e a opinião que tem de si próprio. Independentemente do primeiro, JPP obterá, em virtude do segundo, uma nota medíocre.



