Esta choldra é ingovernável
Ao contrário do original não se trata aqui da populaça, dos gentios e das almas incógnitas deste país. Trata-se sim da gente que nos tem desgovernado.
Por um lado temos um primeiro ministro inenarrável, um ex-boy da JSD e um dos seus fundadores, transmutado em socialista vago, debulhando uma carreira académica a todos os títulos impressiva, não pelo conteúdo mas pelo ardil de chegar longe, de qualquer forma, de ser alguém, de se fazer gente. E tudo valeu nesta indecência. Poderíamos ter vislumbrado o que nos esperaria mas a verdade é que, depois de Santana Lopes, quase tudo nos parecia bom.
Na origem disto esteve uma fuga para Bruxelas do então primeiro-ministro Durão Barroso. O pântano deixara de ser respirável. Era ir ou morrer. Foi.
Antes deste tínhamos Guterres, cuja retórica política era a todos os níveis notável mas era só isso. Ideologia zero, acção quase zero (tirando a de alguns ministros notáveis como o caso de Ferro Rodrigues). Recordo por exemplo o caso do primeiro referendo à despenalização do aborto. Juntando-se dois católicos como líderes dos dois maiores partidos, Guterres e Marcelo tudo fizeram para combater o sim, o primeiro pelo silêncio estrutural que impôs ao partido, Marcelo de um modo aberto e coerente, de quem acredita que o espírito santo desce sobre os cardeais que, fechados e lacrados na Capela Sistina, escolhem o próximo papa. Guterres perdeu umas eleições autárquicas e pretendendo desanuviar o pântano pôs-se a andar.
Pena que ele tenha começado numa manhã célebre, não na manhã imortal de Sofia, mas numa manhã igualmente promissora. Lembro-me de ir para a faculdade e de no comboio se respirar a leveza luminosa de Cavaco se ter ido. A populaça teve a oportunidade devida de uns meses depois se vingar deste intelecto pobre e sem dimensão, derrotando-o na eleição presidencial contra Sampaio, que por sua vez tinha anteriormente perdido as eleições internas no PS para Guterres porque, recordo, com ele os socialistas nunca seriam poder. Cavaco é hoje presidente e aprendeu que bolo rei é um anátema de qualquer político que não sabe rir.
Paralelamente existe ainda o espectro parlamentar. Depois de sexta-feira ter assistido ao debate na assembleia sobre a lei de finanças regionais, fiquei a perceber que estamos sós e desprotegidos. Depois de horas de um debate fétido garanto-vos que nenhuma das minhas dúvidas ficou esclarecida:
1. Haverá alguma justiça social em aumentar o endividamento da Madeira ou de
qualquer outra parte do país?
2. Que raio fará o Bloco de Esquerda e a CDU juntarem-se aos partidos
do outro lado do parlamento?
3. Que critério norteará o endividamento?
Não é possível perceber porque não existem ideias em nenhum dos lados, somente um foçar desgovernado de quem não tem forma nem vida para a encher. Estamos sós perante esta choldra, esta gente sem escrúpulos, esta gente de verniz, esta gente malcriada e estúpida. Nenhum consegue ver o que aí vem nem transformá-lo. Parafraseando Barack Obama, nós temos de ser aqueles por quem esperávamos. Temos de ser necessariamente aqueles que tomam o pulso de tudo isto e aspiram a algo mais. Temos de ser aqueles que não se sentem derrotados pelo medo, aqueles que vivem e olham face a face os adversários e lutam para que numa manhã, não demasiado longínqua, possamos todos viver plenamente nas palavras de Sofia
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


February 9th, 2010 at 3:50 pm
O fim do caminho. É disso que se trata, quando chegarmos ao fim deste caminho (de gente pouco séria nos destinos políticos do país), chegam os salvadores do FMI, portamo-nos bem por uma década e retomaremos esta fraca qualidade política em pouco menos de dez ou quinze anos.
Cá estaremos,
Um abraço felino.
L.