Archive for July, 2009
Manu Chao :: La Vida Tombola
Thursday, July 30th, 2009Albert Camus :: A Morte Feliz
Tuesday, July 21st, 2009
Mersault avait effacé de ses mains la buée de la vitre et il regardait avidement par les longues raies que ses doigts avaient laissées sur les verre. De la terre désolée au ciel sans couleur se levait pour lui l’image d’un monde ingrat òu pour la primére fois, il revenait enfin à lui-même. Sur cette terre, remanée au désespoir de l’innocence, voyager perdu dans dans un monde primitif, il retrouvait ses attaches et, le poing serreé contre sa poitrine, le visage écrasé contre le vitre, il figurait son élan vers lui-même et vers la certitude des grandeurs qui dormaient en lui. Il êut voulu s’écraser dans cette boue, rentrer dans la terre par ce bain de glaise, et dressé sur la plaine sans limite, couvert de boue et les bras ouverts devant le ciel d’éponge et de suie, comme en face du symbole désespérant et splendide de la vie, affirmer sa solidarité avec le monde dans qu’il avait de plus repoussant et se déclarer complice de la vie jusque dans son ingratitude et son ordure. L’immense élan qui le soulevait creva enfim pour la première fois depuis de son départ. Mersault écrasa ses larmes et ses lèvres contre le verre froid. De nouveau la vitre se troubla, la plain disparut.
Mersault limpara com a mão a janela embaciada e olhava com avidez através dos traços que os dedos tinham deixado no vidro. Da terra desolada subia ao céu cinzento a imagem de um mundo ingrato no qual, pela primeira vez, Mersault recuperava o seu eu. Sobre aquela terra, votada ao desespero da inocência, viajante perdido num mundo primitivo, ele reencontrava as suas raízes e, de punhos apertados contra o peito e rosto espalmado contra o vidro da janela, experimentava a sua força em relação a si próprio e à certeza da plenitude que dormia no seu íntimo. Desejaria cair de borco sobre aquela lama, entrar na terra naquele banho de barro e, erguendo-se na planície sem fim, coberto de lama, abrindo os seus braços perante aquele céu de esponja e sebo, como diante do símbolo desesperado e magnífico da vida, gritar a sua solidariedade com o mundo no que ele tinha de mais repugnante, declarar-se cúmplice da vida, na ingratidão e na imundície que ela possui. O enorme impulso que o arrebatava explodiu por fim, pela primeira vez desde que partira. Esmagou as lágrimas e os lábios contra o vidro frio da janela. A janela embaciou-se. A planície desapareceu.
(tradução de José Carlos González)
René Char :: O Prisioneiro de Georges La Tour
Friday, July 17th, 2009
La reproduction en couleur du Prisonnier de Georges de La Tour que j’ai piquée sur le mur de chaux de la pièce où je travaille semble, avec le temps, réfléchir son sens dans notre condition. Elle serre le cœur mais aussi désaltère ! Depuis deux ans, pas un réfractaire qui n’ait, passant la porte, brûlé ses yeux aux preuves de cette chandelle. La femme explique, l’emmuré écoute. Les mots qui tombent de cette terrestre silhouette d’ange rouge sont des mots essentiels, des mots qui portent immédiatement secours. Au fond du cachot, les minutes de suif de la clarté tirent et diluent les traits de l’homme assis. Sa maigreur d’ortie sèche, je ne vois pas un souvenir pour la faire frissonner. L’écuelle est une ruine. Mais la robe gonflée emplit soudain tout le cachot. Le Verbe de la femme donne naissance à l’inespéré mieux que n’importe quelle aurore.
Reconnaissance à Georges de La Tour qui maîtrisa les ténébres hitlériennes avec un dialogue d’êtres humains.
A reprodução a cores do Prisioneiro de Georges La Tour que afixei na parede de cal do quarto onde traabalho, parece, com o tempo, reflectir o seu significado na nossa condição. Aperta o coração, mas como acalma! De há dois anos para cá, não há nenhum refractário que, ao passar a porta, não tenha queimado os seus olhos nos indícios dessa candeia. A mulher explica, o encarcerado escuta. As palavras que se desprendem dessa silhueta terrestre de anjo vermelho são palavras essenciais, palavras que trazem socorro imediato. Ao fundo do cárcere, os minutos de sebo da claridade absorvem e diluem os contornos do homem sentado. A sua magreza de ortiga seca: não vejo nenhuma lembrança que a faça estremecer. A tigela feita num caco. Mas de repente o vestido, enfunado, enche todo o cárcere. O Verbo da mulher dá à luz o inesperado melhor do que todas as auroras.
Agradeço reconhecidamente a Georges La Tour que subjugou as trevas hitlerianas com um diálogo de seres humanos.
(in Furor e Mistério, 178; trad. Margarida Vale de Gato)
Pablo Xune :: Cartas a Lautreaumont
Wednesday, July 15th, 2009um braço só um braço
um cão que nos morde o bocal enquanto esquartejamos o mais ínfimo assombro assassino
o nosso
não existe outra forma de garantir a existência que não seja matar
um dia garanto-vos que vos mato
um dia só um dia
em que imundice estale dos meus ossos
longe de todos os olhos
numa orgia particular
só nós nessa forma de besta amorosa
esse piano carregado de bocas do degredo
desdentadas pelo tempo imenso que me possuíste
como será o meu fim (interrogação)
o princípio não foi o melhor
o meio salvou-se num impulso
e a tua voz, ódio adorado, neste bocado de nada
a tua voz que me enchia tudo
porque pendurastes a tua forma
onde estás onde estás agora aqui
como alimentas o teu corpo que destrói
tudo o que a nossa solidão não levou (interrogação)
aqui as revoluções são só depois do meio dia
e o programa da cultura intoxica o que sobra
já não é possível desde há muito tempo
quando aqui havia silêncio e mais coisas (exclamação)
qualquer coisa tem que se dar
aqui e agora talvez não mas aqui certamente só que talvez não agora
como posso encontrar a tua estrada se todos os caminhos começam por A maiúsculo
onde surges onde em todos os dias deste mesmo silêncio (interrogação exclamação)
olha que um destes dias envio-te qualquer coisa perturbadora
como o anúncio de que a coisa se deu
e que os homens já não se odeiam mais do que a exacta medida da suas forças
e que em cada local de onde partes (pausa)
partir é tudo pior para os que ficam (engolir os comprimidos letais agora)
(sempre com um trago de água para cessarmos sem engasgo)
(continuação)
já não podes chegar
é assim com os viajantes sem nada que não sejam as dores nos seus corpos (procurar adjectivo que mortifique)
e parar de ler os poemas dos outros
e tentar imaginar um homem só um homem
com uma máquina de escrever e uma chocolateira a vapor
de pijama e chinelos
num café galáctico
sem bolinhas verdes e amarelas ao lado do sítio onde escreve
sem inacessibilidades humanas
a fumar e a escrever e a escrever
e a olhar quem passa
e a fumar
e a escrever e a fumar e a olhar quem passa
e a olhar quem passa e a escrever e a fumar
e a escrever
e imóvel sem olhar porque está a escrever
sem mexer as mãos porque está a escrever
sem respirar porque está a escrever
sem corpo porque está a escrever
mostrando assim a besta de quem escreve
e a razão porque outros não sabem porque nunca hão-de escrever
e sobretudo tentar imaginar alguém que consiga isto que aqui está
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(porra, não sei porque escrevo estas merdas.
merda para tudo merda mil vezes merda
e depois ter de mostrar isto não é possível
e garanto-te que agora estaria capaz de matar uma civilização inteira.
não te preocupes sou só eu a limpar a merda que ficou no fundo
carrego estas coisas há demasiado tempo. boa
não sei porque te envio isto
garanto-te que estou bem
as minhas mão é que não param)
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onde é que está a key “any” para continuar (interrogação seguida de uma longa pausa)
Joy Division :: 24 Hours
Wednesday, July 15th, 2009So this is permanence, love’s shattered pride.
What once was innocence, turned on its side.
A cloud hangs over me, marks every move,
Deep in the memory, of what once was love.
Oh how I realised how I wanted time,
Put into perspective, tried so hard to find,
Just for one moment, thought I’d found my way.
Destiny unfolded, I watched it slip away.
Excessive flashpoints, beyond all reach,
Solitary demands for all I’d like to keep.
Let’s take a ride out, see what we can find,
A valueless collection of hopes and past desires.
I never realised the lengths I’d have to go,
All the darkest corners of a sense I didn’t know.
Just for one moment, I heard somebody call,
Looked beyond the day in hand, there’s nothing there at all.
Now that I’ve realised how it’s all gone wrong,
Gottas find some therapy, this treatment takes too long.
Deep in the heart of where sympathy held sway,
Gotta find my destiny, before it gets too late.
Love and Rockets :: Yin and Yang and the Flowerpot Man
Tuesday, July 14th, 2009Under the wheel of the running train
Like a dog in the pouring rain
Diamond days cut and dry
But beauty in the hurricane’s eye
Under fire under thumb
No golden hand no golden sun
Diamond days cut and dry
But beauty in the hurricane’s eye
Beauty beauty beauty beautiful
Beauty beauty beauty beautiful
Alcohol is your yoga baby
Gonna call out my name
Then I’m gonna rain
All over you
All over you
Diamond days cut and dry
But beauty in the hurricane’s eye
Beauty beauty beauty beautiful
Beauty beauty beauty beautiful
Beauty beauty beauty beautiful
Beauty beauty beauty beautiful
Xutos :: A música que se impunha
Monday, July 13th, 2009Thomas Brussig :: Até serem homens
Saturday, July 11th, 2009Isto a propósito do acelerador de partículas e do ronaldo e das 80 000 pessoas que encheram o estádio do real de madrid, para o verem vestido de branco a dar toques numa bola.
Na física atómica, aí disparam os cientistas — tudo professores, aliás —, esses disparam as partículas umas contra as outras, que são tão pequenas que, practicamente não estão lá e só teoricamente existem. Não faço ideia de como se chamam, mas talvez não tenham nenhum nome em especial, já que é uma estupidez dar um nome a uma coisa que não existe. Mas estes cientistas — tudo Professores — podem até pegar nestas particulazinhas atómicas e atirá-las umas contra as outras. E ainda tiram fotografias disto! Na verdade até conseguem ver qualquer coisa, apesar dos fenómenos — os cientistas chamam-lhes fenómenos — serem mais curtos do que um click. Não faço a mínima ideia como é que eles conseguem aquilo. Não é fácil, certamente. Uma fotografia de uma coisa que não ocorre, entre partículas, que não existem — nem a Stasi conseguia tal coisa. Mas eles conseguem. E não só fotografias. Os do big bang pertencem à mesma bancada. Os cientistas de hoje-em-dia sabem, que tem de ter havido um big bang, como sabem, também, quando é que ele teve lugar e o que, por exemplo, aconteceu 4 milésimos de segundo após o big bang. Eu estive a vê-los, à noite, na televisão, e palavra que eles conseguiram pôr-me tonto com aquele palavreado. Que tudo, o mundo inteiro, as estrelas, o universo, tudo, o que vêem aqui, o que seguraram nas vossas mãos até hoje e o que ainda irão segurar, montes, mares — que tudo tenha estado contido há biliões de anos, num ponto mínimo, a uma temperatura de n-milhões de graus centígrados, que pesava biliões de toneladas e que se separou à velocidade da luz, sendo que ao separar-se ainda conseguiu reorganizar-se … São capazes de imaginar tal coisa? Eu tenho sempre dificuldade em imaginar, mas aqueles professores, esses falam com imenso à-vontade sobre tudo isto.
E qual é o resultado de tudo isto para um cientista? Eu não sei lá muito bem, mas de uma coisa tenho a certeza: nenhum deles ganha sequer metade daquilo que recebe um profissional da Bundesliga, e tudo o que se pede a estes é que saibam marcar golos nas balizas, coisa que não são capazes de fazer. Nem mesmo contra uma parede de treino, a sete metros, quando a bola está parada, quando têm tempo, ninguém a atacar e sem pressão psicológica — mesmo nestas circunstâncias não conseguem. Assim vai o mundo: uns conseguem as coisas mais complicadas, outros nem as coisas mais simples. E os incapazes ganham, naturalmente, mais.
Editors :: Racing Rats
Friday, July 10th, 2009When the time comes
You’re no longer there
Fall down to my knees
Begin my nightmare
Words spill from my drunken mouth
I just can’t keep them all in
I keep up with the racing rats
And do my best to win
Slow down little one
You can’t keep running away
You mustn’t go outside yet
It’s not your time to play
Standing at the edge of your town
With the skylight in your eyes
Reaching out to gods
The sun says it’s goodbyes
If a plane were to fall from the sky
How big a hole would it leave
In the surface of the earth
Let’s pretend we never met
Let’s pretend we’re on our own
We live different lives
Until our covers blown
I push my hand up to the sky
Shade my eyes from the sun
As the dust settles around me
Suddenly night time has begun
If a plane were to fall from the sky
How big a hole would it leave
In the surface of the earth
The surface of the earth
Come on now
You knew you were lost
But you carried on anyway
Oh come on now
You knew you had no time
But you let the day drift away
If a plane were to fall from the sky
How big a hole would it leave
If a plane were to fall from the sky
How big a hole would it make
In the surface of the earth
The surface of the earth

