Archive for the ‘coisas da escrita’ Category

pablo xune :: horizontes

Thursday, December 10th, 2009

imaginar uma praia e a luz familiar que os meus olhos refractam
um tempo que não passe
pessoas à distância de um braço de mar
saborear as palavras
e os sons que delas se despegam

poder sentir a sua cabeça impossível no meu colo de novo
os seus olhos fechados
a luz impúbere que se dilata dos corpos passageiros
voadores
e a simples capacidade de ser
e de galar horizontes brilhantes de verniz roskopf

René Char :: O Prisioneiro de Georges La Tour

Friday, July 17th, 2009

job1

La reproduction en couleur du Prisonnier de Georges de La Tour que j’ai piquée sur le mur de chaux de la pièce où je travaille semble, avec le temps, réfléchir son sens dans notre condition. Elle serre le cœur mais aussi désaltère ! Depuis deux ans, pas un réfractaire qui n’ait, passant la porte, brûlé ses yeux aux preuves de cette chandelle. La femme explique, l’emmuré écoute. Les mots qui tombent de cette terrestre silhouette d’ange rouge sont des mots essentiels, des mots qui portent immédiatement secours. Au fond du cachot, les minutes de suif de la clarté tirent et diluent les traits de l’homme assis. Sa maigreur d’ortie sèche, je ne vois pas un souvenir pour la faire frissonner. L’écuelle est une ruine. Mais la robe gonflée emplit soudain tout le cachot. Le Verbe de la femme donne naissance à l’inespéré mieux que n’importe quelle aurore.
Reconnaissance à Georges de La Tour qui maîtrisa les ténébres hitlériennes avec un dialogue d’êtres humains.

A reprodução a cores do Prisioneiro de Georges La Tour que afixei na parede de cal do quarto onde traabalho, parece, com o tempo, reflectir o seu significado na nossa condição. Aperta o coração, mas como acalma! De há dois anos para cá, não há nenhum refractário que, ao passar a porta, não tenha queimado os seus olhos nos indícios dessa candeia. A mulher explica, o encarcerado escuta. As palavras que se desprendem dessa silhueta terrestre de anjo vermelho são palavras essenciais, palavras que trazem socorro imediato. Ao fundo do cárcere, os minutos de sebo da claridade absorvem e diluem os contornos do homem sentado. A sua magreza de ortiga seca: não vejo nenhuma lembrança que a faça estremecer. A tigela feita num caco. Mas de repente o vestido, enfunado, enche todo o cárcere. O Verbo da mulher dá à luz o inesperado melhor do que todas as auroras.
Agradeço reconhecidamente a Georges La Tour que subjugou as trevas hitlerianas com um diálogo de seres humanos.

(in Furor e Mistério, 178; trad. Margarida Vale de Gato)

Pablo Xune :: Cartas a Lautreaumont

Wednesday, July 15th, 2009

um braço só um braço
um cão que nos morde o bocal enquanto esquartejamos o mais ínfimo assombro assassino
o nosso
não existe outra forma de garantir a existência que não seja matar

um dia garanto-vos que vos mato
um dia só um dia
em que imundice estale dos meus ossos

longe de todos os olhos
numa orgia particular
só nós nessa forma de besta amorosa
esse piano carregado de bocas do degredo
desdentadas pelo tempo imenso que me possuíste

como será o meu fim (interrogação)
o princípio não foi o melhor

o meio salvou-se num impulso
e a tua voz, ódio adorado, neste bocado de nada
a tua voz que me enchia tudo

porque pendurastes a tua forma
onde estás onde estás agora aqui
como alimentas o teu corpo que destrói
tudo o que a nossa solidão não levou (interrogação)

aqui as revoluções são só depois do meio dia
e o programa da cultura intoxica o que sobra
já não é possível desde há muito tempo
quando aqui havia silêncio e mais coisas (exclamação)

qualquer coisa tem que se dar
aqui e agora talvez não mas aqui certamente só que talvez não agora

como posso encontrar a tua estrada se todos os caminhos começam por A maiúsculo
onde surges onde em todos os dias deste mesmo silêncio (interrogação exclamação)

olha que um destes dias envio-te qualquer coisa perturbadora
como o anúncio de que a coisa se deu
e que os homens já não se odeiam mais do que a exacta medida da suas forças
e que em cada local de onde partes (pausa)
partir é tudo pior para os que ficam (engolir os comprimidos letais agora)
(sempre com um trago de água para cessarmos sem engasgo)
(continuação)
já não podes chegar
é assim com os viajantes sem nada que não sejam as dores nos seus corpos (procurar adjectivo que mortifique)
e parar de ler os poemas dos outros
e tentar imaginar um homem só um homem
com uma máquina de escrever e uma chocolateira a vapor
de pijama e chinelos
num café galáctico
sem bolinhas verdes e amarelas ao lado do sítio onde escreve
sem inacessibilidades humanas
a fumar e a escrever e a escrever
e a olhar quem passa
e a fumar
e a escrever e a fumar e a olhar quem passa
e a olhar quem passa e a escrever e a fumar
e a escrever
e imóvel sem olhar porque está a escrever
sem mexer as mãos porque está a escrever
sem respirar porque está a escrever
sem corpo porque está a escrever
mostrando assim a besta de quem escreve
e a razão porque outros não sabem porque nunca hão-de escrever

e sobretudo tentar imaginar alguém que consiga isto que aqui está
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(porra, não sei porque escrevo estas merdas.
merda para tudo merda mil vezes merda
e depois ter de mostrar isto não é possível
e garanto-te que agora estaria capaz de matar uma civilização inteira.

não te preocupes sou só eu a limpar a merda que ficou no fundo
carrego estas coisas há demasiado tempo. boa
não sei porque te envio isto
garanto-te que estou bem
as minhas mão é que não param)

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onde é que está a key “any” para continuar (interrogação seguida de uma longa pausa)

Thomas Brussig :: Até serem homens

Saturday, July 11th, 2009

Isto a propósito do acelerador de partículas e do ronaldo e das 80 000 pessoas que encheram o estádio do real de madrid, para o verem vestido de branco a dar toques numa bola.

Na física atómica, aí disparam os cientistas — tudo professores, aliás —, esses disparam as partículas umas contra as outras, que são tão pequenas que, practicamente não estão lá e só teoricamente existem. Não faço ideia de como se chamam, mas talvez não tenham nenhum nome em especial, já que é uma estupidez dar um nome a uma coisa que não existe. Mas estes cientistas — tudo Professores — podem até pegar nestas particulazinhas atómicas e atirá-las umas contra as outras. E ainda tiram fotografias disto! Na verdade até conseguem ver qualquer coisa, apesar dos fenómenos — os cientistas chamam-lhes fenómenos — serem mais curtos do que um click. Não faço a mínima ideia como é que eles conseguem aquilo. Não é fácil, certamente. Uma fotografia de uma coisa que não ocorre, entre partículas, que não existem — nem a Stasi conseguia tal coisa. Mas eles conseguem. E não só fotografias. Os do big bang pertencem à mesma bancada. Os cientistas de hoje-em-dia sabem, que tem de ter havido um big bang, como sabem, também, quando é que ele teve lugar e o que, por exemplo, aconteceu 4 milésimos de segundo após o big bang. Eu estive a vê-los, à noite, na televisão, e palavra que eles conseguiram pôr-me tonto com aquele palavreado. Que tudo, o mundo inteiro, as estrelas, o universo, tudo, o que vêem aqui, o que seguraram nas vossas mãos até hoje e o que ainda irão segurar, montes, mares — que tudo tenha estado contido há biliões de anos, num ponto mínimo, a uma temperatura de n-milhões de graus centígrados, que pesava biliões de toneladas e que se separou à velocidade da luz, sendo que ao separar-se ainda conseguiu reorganizar-se … São capazes de imaginar tal coisa? Eu tenho sempre dificuldade em imaginar, mas aqueles professores, esses falam com imenso à-vontade sobre tudo isto.

E qual é o resultado de tudo isto para um cientista? Eu não sei lá muito bem, mas de uma coisa tenho a certeza: nenhum deles ganha sequer metade daquilo que recebe um profissional da Bundesliga, e tudo o que se pede a estes é que saibam marcar golos nas balizas, coisa que não são capazes de fazer. Nem mesmo contra uma parede de treino, a sete metros, quando a bola está parada, quando têm tempo, ninguém a atacar e sem pressão psicológica — mesmo nestas circunstâncias não conseguem. Assim vai o mundo: uns conseguem as coisas mais complicadas, outros nem as coisas mais simples. E os incapazes ganham, naturalmente, mais.

Baudelaire :: L’Étranger (O Estrangeiro)

Saturday, July 4th, 2009

— Qui aimes-tu le mieux, homme énigmatique, dis ? Ton père, ta mère, ta soeur ou ton frère ?
— Je n’ai ni père, ni mère, ni soeur, ni frère.
— Tes amis ?
— Vous vous servez là d’une parole dont le sens m’est restée jusqu’à ce jour inconnu.
— Ta patrie ?
— J’ignore sous quelle latitude elle est située.
— La beauté ?
— Je l’aimerais volontiers, déesse et immortelle.
— L’or ?
— Je le hais comme vous haïssez Dieu.
— Eh ! qu’aimes-tu donc, extraordinaire étranger ?
— J’aime les nuages… les nuages qui passent… là-bas… là-bas… les merveilleux nuages !

— De quem gostas mais, diz lá, homem enigmático? de teu pai, de tua mãe, de tua irmã, ou de teu irmão?
— Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
— Dos teus amigos?
— Eis uma expressão cujo sentido até hoje ignorei.
— Da tua pátria?
— Não sei a latitude em que está situada.
— Da beleza?
— Amá-la-ia de boa vontade, divina e imortal.
— Do ouro?
— Odeio-o tanto como vós a Deus.
— Então que amas tu, singular estrangeiro?
— Amo as nuvens … as nuvens que passam … lá longe … as maravilhosas nuvens!

(tradução por António Pinheiro Guimarães)

Mário Henrique Leiria :: Noivado

Friday, July 3rd, 2009

Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mão abertas e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia.

Pablo Xune :: cartas a lautreámont

Tuesday, June 30th, 2009

esta coisa que não passa e o que escrevo disperso pelas tuas mesas
aqui a coisa está fácil de seguir
despertei-me do jovem adulador que fui em tempos

agora é só fuga
nestes pianos com teclas de todas as cores
este simples crepitar da noite que não existiu mais

subistes um degrau
continuas a ser demasiado

vejo o rio venenoso que vem até mim
não sei porque entro e não gosto de parar de dissolver as minhas poções
como poderei tomar partido se o tempo desdisse aquilo que eu teria para dizer

as minhas mãos inquietas
dessa inquietude que noto nos teus olhos
a vontade de ir e ficar para sempre
suspenso

bazar de palavras onde tudo se cruza sem se tocar
diabólico certamente
para quem acredite nessas coisas
da mesma têmpera com que são feitos os fios sémen
que jorrei nas bocas das fachadas de onde eclodi

gostava que me tocasses
quiçá nestas mãos que escrevem
que saísses detrás da porta onde espias o meu vil desejo
e te sentasses na minha boca para que te devorasse
no sentido contrário de uma palavra mágica
ilimitada

o mar

Tuesday, June 23rd, 2009

era o fim do dia. mais um. ferdinand gostava de vir para aqui, para o porto da sua cidade, ver os barcos passarem a barra. adivinhava um mundo inteiro por descobrir. desde sempre que quisera  partir, sem olhar para trás. um dia talvez voltasse, quem sabe. mas era preciso partir primeiro. a vida fora-lhe ingrata de uma forma enviesada. o lugar que ocupava era o sonho de qualquer um. para ele era um fardo. como poderia explicar às pessoas que não queria aquilo para nada. queria era partir. sair daqui, não ter onde ficar, conhecer o mundo, não ter país nem passaporte. ser de novo ninguém.

mas ia ficando. sentia-se cobarde por não tomar um daqueles barcos. assim como assim, ver os barcos sempre lhe permitia perceber que havia esperança. os seus amigos de infância tinham partido todos. uns tinham mesmo morrido. perdera a invencibilidade. percebia que cada cigarro que fumava era menos um cigarro de todos os cigarros que iria fumar. o tempo não parava e não seria clemente para quem não partira. tentava perceber como seria o derradeiro fôlego, qual seria a cor do último barco. tinha já imaginado a sua morte, lúcida, de olhos nos olhos.

adivinhava os seu olhos abertos, estáticos, já sem vida. o seu ex-corpo abandonado dias a fio, naqueles céus gigantescos de quem leu o mediterrâneo. nada mudaria. depois do último barco um outro e outro ainda, sem cessar. uma melodia silenciosa iria venerar todos os cantos de todas as casas que habitara. os rostos que lhe tocaram já esqueceram. seria melhor assim. não existe maior desconforto do que partir e deixar alguma coisa genuína para trás.

e que não o entendessem mal. aquilo não era um diálogo entre ele e deus. não. não haveria de certeza mais nada. tudo acabaria ali. o resto é só conforto para os que ficam. mas para ele não. felizmente tinha evitado tocar demasiado fundo nas pessoas. não deixaria ninguém. melhor assim.

às vezes, havia uma mulher que também vinha ver o mar. não sabia o seu nome, nem nada para lá de um primordial desejo de lhe tocar. nunca o faria, não nesta vida. se ela o tocasse não fugiria mas era melhor assim, julgava ele. não podia encher a sua cabeça de nomes, agora que a partida estava eminente. gostava de a olhar, só isso. era simples. pena que tudo o resto não fosse assim. um dia, ferdinand perdeu a coragem e sentou-se mesmo ao seu lado. o dia estava especialmente quente. ela não estranhou. deu-lhe a mão e sorriu para longe. os seus mundos tocavam-se através do mar. nada mais. no fim do dia partiram enquanto se olhavam uma última vez.

a mulher continuara a vir aqui. ferdinand nunca mais foi visto. o seu desaparecimento foi comunicado às autoridades. quando leu a notícia no jornal, a mulher sorriu e do mar pareceu receber um leve murmúrio. estremeceu suavemente. anotou a cor do barco que acabara de atracar. os estivadores continuavam a berrar e a brilhar sob aquela luz desértica. o barulho suave do mar. o horizonte. os barcos, a partir e a chegar. tudo parecia como dantes e nem mesmo as altercações momentâneas fariam alternar aquele cais. por todo o lado pessoas passavam, sozinhas ou de mãos nos bolsos. de todos os lados aquele cheiro, que só quem já esteve perto do mar conhece.

um dia, a mulher também deixou de aparecer. do seu rosto não havia testemunho, mas consta que no seu coração zurzia uma paixão mágica, por aquele mar e por todas as coisas invisíveis que silenciosamente podia tocar.