era o fim do dia. mais um. ferdinand gostava de vir para aqui, para o porto da sua cidade, ver os barcos passarem a barra. adivinhava um mundo inteiro por descobrir. desde sempre que quisera partir, sem olhar para trás. um dia talvez voltasse, quem sabe. mas era preciso partir primeiro. a vida fora-lhe ingrata de uma forma enviesada. o lugar que ocupava era o sonho de qualquer um. para ele era um fardo. como poderia explicar às pessoas que não queria aquilo para nada. queria era partir. sair daqui, não ter onde ficar, conhecer o mundo, não ter país nem passaporte. ser de novo ninguém.
mas ia ficando. sentia-se cobarde por não tomar um daqueles barcos. assim como assim, ver os barcos sempre lhe permitia perceber que havia esperança. os seus amigos de infância tinham partido todos. uns tinham mesmo morrido. perdera a invencibilidade. percebia que cada cigarro que fumava era menos um cigarro de todos os cigarros que iria fumar. o tempo não parava e não seria clemente para quem não partira. tentava perceber como seria o derradeiro fôlego, qual seria a cor do último barco. tinha já imaginado a sua morte, lúcida, de olhos nos olhos.
adivinhava os seu olhos abertos, estáticos, já sem vida. o seu ex-corpo abandonado dias a fio, naqueles céus gigantescos de quem leu o mediterrâneo. nada mudaria. depois do último barco um outro e outro ainda, sem cessar. uma melodia silenciosa iria venerar todos os cantos de todas as casas que habitara. os rostos que lhe tocaram já esqueceram. seria melhor assim. não existe maior desconforto do que partir e deixar alguma coisa genuína para trás.
e que não o entendessem mal. aquilo não era um diálogo entre ele e deus. não. não haveria de certeza mais nada. tudo acabaria ali. o resto é só conforto para os que ficam. mas para ele não. felizmente tinha evitado tocar demasiado fundo nas pessoas. não deixaria ninguém. melhor assim.
às vezes, havia uma mulher que também vinha ver o mar. não sabia o seu nome, nem nada para lá de um primordial desejo de lhe tocar. nunca o faria, não nesta vida. se ela o tocasse não fugiria mas era melhor assim, julgava ele. não podia encher a sua cabeça de nomes, agora que a partida estava eminente. gostava de a olhar, só isso. era simples. pena que tudo o resto não fosse assim. um dia, ferdinand perdeu a coragem e sentou-se mesmo ao seu lado. o dia estava especialmente quente. ela não estranhou. deu-lhe a mão e sorriu para longe. os seus mundos tocavam-se através do mar. nada mais. no fim do dia partiram enquanto se olhavam uma última vez.
a mulher continuara a vir aqui. ferdinand nunca mais foi visto. o seu desaparecimento foi comunicado às autoridades. quando leu a notícia no jornal, a mulher sorriu e do mar pareceu receber um leve murmúrio. estremeceu suavemente. anotou a cor do barco que acabara de atracar. os estivadores continuavam a berrar e a brilhar sob aquela luz desértica. o barulho suave do mar. o horizonte. os barcos, a partir e a chegar. tudo parecia como dantes e nem mesmo as altercações momentâneas fariam alternar aquele cais. por todo o lado pessoas passavam, sozinhas ou de mãos nos bolsos. de todos os lados aquele cheiro, que só quem já esteve perto do mar conhece.
um dia, a mulher também deixou de aparecer. do seu rosto não havia testemunho, mas consta que no seu coração zurzia uma paixão mágica, por aquele mar e por todas as coisas invisíveis que silenciosamente podia tocar.
