Mário Henrique Leiria :: Noivado

July 3rd, 2009 by gmorais

Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mão abertas e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia.

Heroes del Silencio :: Entre dos Tierras

July 3rd, 2009 by gmorais

Pronto, o tipo é assim um género de cópia do Jim Morrisson sem drogas interessantes, mas a música tem pinta, muita pinta.

Entre Aspas :: Criatura da Noite

July 2nd, 2009 by gmorais

An interview with Vladimir Arnold

July 1st, 2009 by gmorais

Vladimir Arnold é um dos maiores matemáticos vivos e só não é o melhor porque isso não existe. Nesta entrevista ele fala sobre Matemática, o ensino e sobre o mundo que virá. Tentem resolver os problemas de que ele fala e comparem com aquilo que nós aprendemos. Depois imaginem o que se seguirá.

A entrevista toda está aqui.

Monty Python :: Hermit

June 30th, 2009 by gmorais

Como diria a nossa amiga Zorbas: Muito bom!

Pablo Xune :: cartas a lautreámont

June 30th, 2009 by gmorais

esta coisa que não passa e o que escrevo disperso pelas tuas mesas
aqui a coisa está fácil de seguir
despertei-me do jovem adulador que fui em tempos

agora é só fuga
nestes pianos com teclas de todas as cores
este simples crepitar da noite que não existiu mais

subistes um degrau
continuas a ser demasiado

vejo o rio venenoso que vem até mim
não sei porque entro e não gosto de parar de dissolver as minhas poções
como poderei tomar partido se o tempo desdisse aquilo que eu teria para dizer

as minhas mãos inquietas
dessa inquietude que noto nos teus olhos
a vontade de ir e ficar para sempre
suspenso

bazar de palavras onde tudo se cruza sem se tocar
diabólico certamente
para quem acredite nessas coisas
da mesma têmpera com que são feitos os fios sémen
que jorrei nas bocas das fachadas de onde eclodi

gostava que me tocasses
quiçá nestas mãos que escrevem
que saísses detrás da porta onde espias o meu vil desejo
e te sentasses na minha boca para que te devorasse
no sentido contrário de uma palavra mágica
ilimitada

Futebol por cá

June 29th, 2009 by gmorais

derby2

Por cá, para jogar à bola não basta um campo com as medidas regulamentares e umas bancadas para as pessoas se sentarem. É necessário também uma jaula para enfiar uns quantos selvagens que sem motivo se deslocam aos estádios. Como é que se resolve estes problemas: inconstitucionalizar as claques e todas as manifestações de ódio, devolver estes animais à selva e esperar que um rinoceronte lhes molde, com a devida ternura, os respectivos esfíncteres.

MANU CHAO :: ME GUSTAS TU

June 28th, 2009 by gmorais

o mar

June 23rd, 2009 by gmorais

era o fim do dia. mais um. ferdinand gostava de vir para aqui, para o porto da sua cidade, ver os barcos passarem a barra. adivinhava um mundo inteiro por descobrir. desde sempre que quisera  partir, sem olhar para trás. um dia talvez voltasse, quem sabe. mas era preciso partir primeiro. a vida fora-lhe ingrata de uma forma enviesada. o lugar que ocupava era o sonho de qualquer um. para ele era um fardo. como poderia explicar às pessoas que não queria aquilo para nada. queria era partir. sair daqui, não ter onde ficar, conhecer o mundo, não ter país nem passaporte. ser de novo ninguém.

mas ia ficando. sentia-se cobarde por não tomar um daqueles barcos. assim como assim, ver os barcos sempre lhe permitia perceber que havia esperança. os seus amigos de infância tinham partido todos. uns tinham mesmo morrido. perdera a invencibilidade. percebia que cada cigarro que fumava era menos um cigarro de todos os cigarros que iria fumar. o tempo não parava e não seria clemente para quem não partira. tentava perceber como seria o derradeiro fôlego, qual seria a cor do último barco. tinha já imaginado a sua morte, lúcida, de olhos nos olhos.

adivinhava os seu olhos abertos, estáticos, já sem vida. o seu ex-corpo abandonado dias a fio, naqueles céus gigantescos de quem leu o mediterrâneo. nada mudaria. depois do último barco um outro e outro ainda, sem cessar. uma melodia silenciosa iria venerar todos os cantos de todas as casas que habitara. os rostos que lhe tocaram já esqueceram. seria melhor assim. não existe maior desconforto do que partir e deixar alguma coisa genuína para trás.

e que não o entendessem mal. aquilo não era um diálogo entre ele e deus. não. não haveria de certeza mais nada. tudo acabaria ali. o resto é só conforto para os que ficam. mas para ele não. felizmente tinha evitado tocar demasiado fundo nas pessoas. não deixaria ninguém. melhor assim.

às vezes, havia uma mulher que também vinha ver o mar. não sabia o seu nome, nem nada para lá de um primordial desejo de lhe tocar. nunca o faria, não nesta vida. se ela o tocasse não fugiria mas era melhor assim, julgava ele. não podia encher a sua cabeça de nomes, agora que a partida estava eminente. gostava de a olhar, só isso. era simples. pena que tudo o resto não fosse assim. um dia, ferdinand perdeu a coragem e sentou-se mesmo ao seu lado. o dia estava especialmente quente. ela não estranhou. deu-lhe a mão e sorriu para longe. os seus mundos tocavam-se através do mar. nada mais. no fim do dia partiram enquanto se olhavam uma última vez.

a mulher continuara a vir aqui. ferdinand nunca mais foi visto. o seu desaparecimento foi comunicado às autoridades. quando leu a notícia no jornal, a mulher sorriu e do mar pareceu receber um leve murmúrio. estremeceu suavemente. anotou a cor do barco que acabara de atracar. os estivadores continuavam a berrar e a brilhar sob aquela luz desértica. o barulho suave do mar. o horizonte. os barcos, a partir e a chegar. tudo parecia como dantes e nem mesmo as altercações momentâneas fariam alternar aquele cais. por todo o lado pessoas passavam, sozinhas ou de mãos nos bolsos. de todos os lados aquele cheiro, que só quem já esteve perto do mar conhece.

um dia, a mulher também deixou de aparecer. do seu rosto não havia testemunho, mas consta que no seu coração zurzia uma paixão mágica, por aquele mar e por todas as coisas invisíveis que silenciosamente podia tocar.

Sexualidades

June 22nd, 2009 by gmorais

Diz-se muitas vezes que uma pessoa é heterossexual por defeito ou omissão. No meu caso, e após demorada reflexão durante toda a minha adolescência, nunca compreendi o lado estético de gostar de homens.
Julgo mesmo que a nobreza das mulheres pode ser medida pelo facto de gostarem destes fanfarrões absurdos. Sendo ainda mais claro, não há paciência para aturar a maior parte dos homens, sobretudo os que têm defeituosos níveis de testosterona. É verdade que existem homens com quem é extremamente agradável de estar mas esses, já perceberam há muito que são as mulheres que mandam no mundo. E também deixaram de lutar contra isso. Isto está para as relações sociais como o princípio de D’Alembert está para a Mecânica: uma partícula segue sempre o percurso que minimiza a acção.

É verdade que as mulheres, com todas as meias palavras que as caracterizam, com aquela coisa do “eu não te disse mas julguei que tivesses percebido”, como se nós passássemos o tempo todo a tentar adivinhar o que elas dizem em tudo o que não pronunciam, pode levar qualquer um, homem ou mulher, à loucura. É também evidente que as mulheres são muito mais espertas que os homens, pois basta ver como elas competem umas com as outras, sempre com sorrisos e abraços e querida para aqui e para ali, com aquelas coisas do “estás linda hoje!” querendo significar apenas “essa peida não pára de aumentar!”. Depois, quando nos perguntam “achas que as minhas mamas estão demasiado grandes?”, como se para os homens houvessem mamas demasiado grandes, ou “achas que devia perder uns quilitos?”, estavam à espera que soubéssemos a resposta.

Com os homens não há subtileza. Já viram os homens a jogar à bola? Pois as relações masculinas são basicamente isso. No início é tudo abraços, mas mal a bola rola adeus. Começa tudo à porrada, como quem diz “passas por aqui e levas”. Muita gente não percebe o encanto do futebol mas é só isto. É uma guerra com hora marcada e com árbitro, que acaba, na maior parte das vezes, como começou. Ninguém está preocupado com a beleza ou fealdade da peida dos jogadores. Ninguém, nenhum homem entenda-se, consegue imaginar um balneário cheio de gajos, a porem as caneleiras e a afiar os pitons e alguém dizer “não sei que meias hei-de levar vestidas”, ou alguém pensar “estes calções não me fazem sobressair os glúteos!”, porque um gajo destes não joga mais depois de levar a primeira pantufada, um gajo destes não tem, falando em futebolês escorreito, estofo para esta merda.

E depois há as mulheres que mais parecem homens e homens que mais parecem mulheres, seres híbridos que resultam do Darwinismo social. E meus amigos, para estes é que não há mesmo pachorra. Como é que se pode jogar à bola com um gajo que nos está a dizer intuitivamente “esses quadricipedes já não são o que eram!”, sem sabermos se vamos levar porrada ou não. E conseguem imaginar meter conversa com uma mulher que antes de falar já está a pensar “belas palmadas vais levar nesses costados!”. Eu pelo menos não consigo.

E existem as mulheres apoixanantes, que, diga-se em abono da verdade, são quase todas, para as quais eu olho e penso “porra, esta é demasiada areia para o meu triciclo a pedais!”, porque as mulheres são isso mesmo, deslumbrantes, cheias de formas e solilóquios, enormes na sua fragilidade aparente, mas junto das quais nos sublimamos. Após toda a reflexão tenho apenas uma certeza, a de que se fosse mulher seria lésbica.